17Novembro2017

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Trezentos anos de novo Commonwealth

                                                                                                 José Maurício Guimarães

 

O que talvez poucos saibam é que, num dia como o de hoje, 24 de junho, há trezentos anos, nascia o que convencionamos chamar de “maçonaria moderna”.

Pois naquele verão de 1717, na noite de São João, quatro Lojas de Londres se reuniram num restaurante barato chamado Goose and Gridiron e se autodeclararam Grande Loja. Verão sim, pois solstício de inverno no hemisfério sul é solstício de verão no hemisfério norte (e vice-versa). Por essa razão e calor, os membros daquelas propaladas quatro Lojas, beberam muita cerveja antes de inaugurarem o empreendimento e  elegerem um obscuro Anthony Sayer como seu Grande Mestre.

 

 

Esta foi a primeira Grande Loja do mundo, apesar de o dia “de São João” nada ter a ver com nenhum dos santos do cristianismo e nenhuma constituição ter sido redigida naquele ano. Só em 1723 ‒ portanto cinco anos mais tarde ‒ a nova “Grand Lodge” publicou seu primeiro livro de regras: as Constituições da Maçonaria. Daí em diante passaram a se reunir trimestralmente, fizeram registros de seus encontros e, como bons súditos da Coroa, trataram de estender sua autoridade além de Londres, por toda a Europa e depois pelos continentes do mundo. Um império formidável do qual se dizia (ou se diz ainda de offshores e paraísos fiscais) “onde o Sol nunca se deita”, pois se é noite na Guiana inglesa, por exemplo, o astro rei (o verdadeiro “são joão”) já está de pé na Austrália.

Tamanho poder exercido por uma ilha que visava à própria expansão, anexando territórios ou submetendo econômica, política e culturalmente outras nações, viu na moderna invenção ocorrida na taberna Goose and Gridiron (que traduzo por “o ganso grelhado”, ver imagem acima) um importante instrumento para disciplinar os arroubos dos livres pensadores que pregavam a extinção das monarquias e das religiões institucionalizadas. E ainda não se falava, nem se sonhava com o brexit!

E, como todos sabem, a gloriosa ilha e sua Commonwealth marcham sob o cetro da Coroa e submissa ao bastão da igreja anglicana, um tipo de catolicismo reinventado por Henrique VIII, em 1534, para conseguir o divórcio de Catarina de Aragão e se juntar à graciosa Ana Bolena (que, segundo consta, tinha seis na mão esquerda). O casamento ocorreu em 25 de janeiro de 1533. Estava declarada a guerra entre o Vaticano e Henrique VIII. O rei e o arcebispo anglicano foram excomungados da Igreja Católica pelo Papa Clemente VII.

Contudo, Ana Bolena ‒ famosa “Ana dos mil dias” ‒ não satisfez o monarca dando-lhe um filho varão. Henrique VIII inventou contra ela uma história de adultério, anulou o casamento dois dias antes de executá-la na Torre de Londres por decapitação.

Contei essa arenga toda para mostrar que nada foi mais conveniente, quase dois séculos mais tarde, que, a “maçonaria moderna” fosse estabelecida sobre os pilares de que “política e religião são assuntos proibidos nas Lojas”.

Para nossa sorte, as célebres Constituições foram redigidas por um escocês, James Anderson e pensadas por um francês, Jean Théophile Desaguliers, filósofo e membro da Royal Society de Londres e que habilmente mudara seu nome para John Theophilus.

Acho que o resto dessa arenga todo mundo conhece. Ou deveria conhecer.

Vieram os “especulativos”; especularam, especularam ‒ talvez muito barulho por nada (Much Ado About Nothing, já teria dito o Bill Shakespeare) ‒ e a Grande Loja da Inglaterra foi dividida em duas (a dos antigos que era nova e a dos modernos que era antiga); depois se reconciliaram e a Grande Loja virou “Unida da Inglaterra”.

Entre reconhecidos e aqueles considerados “espúrios”, todos aplaudem esses trezentos anos do novo Commonwealth... justo e perfeito!

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